Paulo César de Faccio Carvalho
Introdução
O Brasil, a partir da década de 70, experimentou uma mudança vertiginosa nos sistemas de produção animal baseados em pastagens. O resultado disso foi o monumental incremento das áreas com pastagens cultivadas, que cresceram de 30 para 100 milhões de ha no período (Jank et al., 2005). Às expensas desse crescimento, ao menos em parte, as pastagens naturais decresceram aproximadamente 25 % em sua superfície. Grande parte dessas flutuações ocorreu nos Cerrados, convertido no modelo expansionista da agropecuária nacional. O “sucesso ecológico” da adaptação de um gênero de gramínea africana nos tornou mundialmente conhecidos, seja do ponto de vista científico, seja do ponto de vista econômico, e fundamentou a atual posição e o temor que, respectivamente, desfrutamos e causamos em nível mundial.
Enquanto alguns festejam esse status adquirido, outros temem pelo futuro. No cenário contemporâneo destacam-se dois fenômenos que deverão influenciar a produção animal a médio e longo prazo: o endurecimento de barreiras não tarifárias ao comércio de nossos produtos e a crescente conscientização da sociedade com relação à preservação do meio ambiente e à qualidade do ambiente produtivo. A questão dos organismos geneticamente modificados é um bom exemplo recente de como a sociedade pode influenciar os meios de produção, e de como há espaço para o oportunismo. Para ilustrar o problema potencial, voltemos ao emblemático exemplo dos Cerrados. Ele pode ser usado tanto como modelo de transformação para o prisma positivo do avanço tecnológico das ciências agrárias, bem como para o prisma negativo da ecologia e da preservação ambiental, subsidiando restrições a esse sistema de produção, ainda que tenha como base o pasto.
É possível questionar o quão longe chegarão as exigências do mercado consumidor, e o quanto ele estará disposto a pagar por elas, mas o fato é que uma série de movimentos nos cenários nacional e mundial já se identificam em relação ao cuidado e a qualidade
dos produtos e dos sistemas de produção. No que diz respeito aos sistemas de produção baseados em pastagem, é preciso evoluir num debate que não tenha apenas a produtividade como argumento. É importante também reconhecer que os sistemas de produção baseados em pastagem tem vantagens do apelo ecologicamente correto, mas que isto não é tudo.
O primeiro objetivo deste trabalho é o de se fazer um alerta para as conseqüências de uma filosofia de busca única pela intensificação, contextualizado no manejo de pastagens. O segundo objetivo deste manuscrito é reflexivo e crítico, revisitando conceitos de manejo da pastagem de forma que se venha a estabelecer um padrão de discernimento crítico com relação a como direcionamos os avanços em manejo de pastagem num passado recente, procurando estabelecer um novo marco conceitual compatível com as novas exigências da sociedade para com a pastagem.
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